O Sílvo da noite corta a escuridão pintada pelo cinza das nuvens no céu mediocremente estrelado. À noite, minha amada escuridão, gemendo aos prazeres da fria lufada de ar, na qual estou imerso. Pensamentos em revolução numa pobre mente perturbada, a chuva cai. Pequenas navalhas cortam o meu corpo, à noite me trai, com suas lágrimas falsas encharca o meu corpo. Noite puta, sua hipócrita maldita chora pelo meu sofrimento como se me conhecesse. EU te conheço, sua desgraça, mas a mim, ninguém conhece. Sou complacente a tua companhia, entretanto tua condolência é para mim um tapa na cara.
O câncer bendito que seguro em minha mão me ajuda nesta árdua tarefa que é viver. Ajuda-me sim, pois morrendo. Porque há males que vem para o bem. A vida não é senão uma contagem regressiva para a morte, a transmutação que todos nós passamos. Alguns mais cedo, outros mais tarde. Para mim, alguns minutos a menos neste relógio da vida significam muito mais vida. Perco sim meu tempo, mas de alguma forma ganho qualidade, pois, é somente morrendo que se pode verdadeiramente viver.
A pequena brasa que sustenta minha vida começa a falhar, treme, fracamente iluminando-se. A chama pobre presa entre meus dedos então se acaba no filtro. Todos me traem, a noite puta, ela me trai, a morte amiga, que de tão amiga torna-se inimiga, ela me trai. Até o câncer maldito, este desgraçado que deveria sustentar minha existência se apaga entre meus dedos me deixando só neste mundo terrível. Ele também me trai. Enquanto busco em minha casaca outro traidor de filtro de algodão, o cheiro da morte, assim como de uma sepultura úmida revolvida, se aproxima. Enquanto preparo para acender meu câncer, uma mão amiga se estende oferecendo uma brasa. É a mão do Diabo, a própria que, como Deus, dá, mas também tira.
Johan

